7 de outubro de 2004

(5NP) E regressamos a Bernard. A tranquila erudição do nosso amigo Bernard passa para uma fase difícil. Para compreendermos a sua tormenta deixamos uma longa citação – que pode ser acrescentada a um bom bloco de notas, pois contem autores que ficam bem na biblioteca de casa, sobretudo se tiver espaço para alguma teologia contemporânea:
«Toda a teologia desmistificada e radical a que eu passava a vida a resistir, parecia-me de súbito transparentemente verdadeira. A ortodoxia cristã era uma mistura de mito e metafísica, destituída de qualquer sentido neste mundo moderno, posterior ao Iluminismo, excepto se entendido historicamente e interpretado metaforicamente. Jesus, tanto quanto poderíamos separar a sua identidade real do confuso esboço que nos deixavam os primitivos evangelistas, era obviamente um homem notável, de uma sabedoria singularmente valiosa (mas enigmática, muito enigmática), infinitamente mais interessante do que os zelotas apocalípticos, que se lhe podem comparar e que são característicos daquele período da história hebraica. E a história da sua crucificação (embora não passível de prova histórica) era comovente. Mas o mecanismo sobrenatural da história, a ideia de que ele era Deus, «enviado» por si próprio, como Pai, do Céu à Terra, nascido de uma virgem, e que ressuscitou dos mortos e de novo subiu aos Céus, de onde voltará no último dia para julgar os vivos e os mortos, então, bom, também aí havia grandeza e força simbólica narrativa, mas não maior credibilidade do que a maioria dos outros mitos e lendas sobre as divindades que, pela mesma época, proliferavam no Mediterrâneo e no Médio Oriente.
E aí estava eu. Um padre ateu ou, pelo menos, agnóstico. E sem me atrever a dizê-lo a ninguém. Regressei aos teólogos anglicanos radicais, John Robinson, Maurice Wiles, Don Cupitt e companhia, que costumava ridicularizar na minha aula de apresentação e reli-os com maior respeito. Nos seus trabalhos encontrei uma espécie de justificação para poderá continuar a ser padre. Cupitt, por exemplo, falava de pessoas que são silenciosamente agnósticas ou cépticas relativamente às doutrinas sobrenaturais cristãs, enquanto continuam a praticar a religião cristã com surpreendente perfeição. Pensei que seria uma dessas pessoas.» (Lodge, obra em uso, 170 e 171)