29 de julho de 2004

O Anjo Mudo de Heinrich Böll. Alemanha, 8 de Maio de 1945. A guerra acabou e os homens e mulheres retornam. Colónia, onde a acção se desenrola, estava submersa em escombros: igrejas bombardeadas e hospitais de emergência. Böll retrata os que deambulam sofrendo e chorando. É o caso de Regina Unger e Hans Schnitzler que se encontram fruto do acaso e desenvolvem entre si uma história de amor procurando, ao mesmo tempo, a sobrevivência, pois se a guerra acabou, a fome não. As dúvidas sobre a paz são evidentes nas palavras de Hans: “Eu sei que a guerra já acabou, mas paz?”. É um mundo minado pela incerteza do amanhã e pelas memórias visíveis do passado. Hans combateu pela Alemanha e, no seu regresso, procura um passaporte para escapar às repressões dos aliados e obter uma nova identidade. Celebrou o dia do armistício, sentado sobre um caixote de lixo, a comer fatias de pão. Recebe apoio de um capelão: a solidariedade é possível. Mas encontra também indivíduos que personificam o mal, obcecados pelo dinheiro, que fingem que nada se passou no país: o doutor Fischer. O Anjo Mudo apresenta a descrença nos homens apesar do amor e a ideia de que não há pátria neste mundo, embora germine a possibilidade de refazer a vida ali, num país arrasado. (Colaboração de José António Henriques)