24 de junho de 2004

Jean Paul Sartre, As palavras, Unibolso, s.d., s.l. As Palavras são um exercício de Sartre para reinterpretar o seu passado. Um exercício irónico. Por agora, deixo de lado a função da ironia. Na interpretação que Sartre faz do seu passado há uma insistência no carácter público da sua vida. O quer isto dizer? – Que a sua identidade é feita em função do olhar do outro. Mas porque não há um olhar, mas olhares, olhares diferenciados, a identidade corre permanentemente o risco de se perder. Para compensar este risco, Sartre quer ser. E quer ser uma coisa primeira, uma base, que permita o ir e vir da variação. Procura-a e como muitos outros encontra-a na profissão; na profissão de escritor. Ser escritor, constantemente escritor, permite suportar a variação nas amizades, nos amores, nos compromissos. Salva a variação da dissolução… Dito isto, uma nota final: Sartre assume um religioso travestido; se a santidade do religioso concede a imortalidade, Sartre procura a imortalidade na glória mundana.