29 de junho de 2004

Em Balthasar, Dieu et l’homme d’aujourd’hui, da Desclée de Brouwer, lida-se com a mutação da cosmologia para a antropologia. Neste intuito, o livro segue a Grécia, a Idade Medieval, o Renascimento, o barroco e Shakespeare, o romantismo alemão, Novalis. No fim da Idade Média anuncia o aparecimento da antropologia que em Pascal é visível com contornos nítidos. A partir desta mutação, pensa as implicações do pensamento antropológico para os movimentos religiosos. Vê o catolicismo como um herdeiro de uma visão globalizante, e afirma polemicamente que o protestantismo por ser movimento de protesto é também movimento de quebra de coesão. Depois analisa o modo como o protestantismo e o catolicismo se encaixam nas actuais estruturas sociais. O protestantismo, por viver a cisão, por ter prática de viver debaixo de um regime de cisão, encontra com maior facilidade consensos e com maior facilidade aceita o registo de uma unidade fragmentada. Por outro, por recusar a coesão, o protestantismo vive melhor no tempo dos relativismos. O catolicismo tem para Balthasar a tendência de se tornar cada vez mais marginal. A marginalidade do catolicismo faz-se sentir no mundo, porque vivendo o mundo no domínio do relativo, terá cada vez maior dificuldade de lidar com as pretensões ao absoluto do catolicismo. Aqui, Balthasar assinala um aspecto fecundo: o isolamento pode ser fonte de criação, o actual momento histórico pode ser pretexto para se redescobrir a solidão criadora.