4 de junho de 2004

Colaboração de José António Henriques. Mais Primo Levi. A Trégua, de Primo Levi. Regressar a casa pode ser uma tarefa difícil. Podemos afirmá-lo se pensarmos no caso dos ex-häftlinge, sobreviventes dos campos de concentração, retratados neste livro. Depois da experiência-limite de Auschwitz, onde foram, em potência, números a eliminar, Primo Levi e os seus camaradas, contactam com uma Europa devastada pela II Guerra Mundial. O comboio de mercadorias que os transporta de regresso, sob orientação dos russos, circula sem organização, entre a Polónia, Rússia, Roménia, ou mesmo, Alemanha, o que faz desta viagem uma odisseia que possibilita a Levi o contacto com homens e mulheres com histórias singulares de resistência, muitas envoltas em mistério, que se poderiam encaixar na literatura fantástica. Como o Mouro de Verona, o velho blasfemo, que praguejava contra o dia e contra a noite, contra Deus e contra os homens. Contra si mesmo. Contra os tijolos que cimentava, já que era pedreiro... Mas o regresso a casa assume ainda um sentido mais alegórico: como sobreviver ao veneno de Auschwitz? - A experiência do Lager levou Primo Levi a um sonho incessante, pleno de terror, que no seu término continha a palavra do comando da alvorada em Auschwitz: “Wstawac”, levantar.