29 de março de 2004

eXistenZ - A nAtureZa nos filmes. Já há muito havia inquirido porque é que hoje em dia pouco do que correntemente se diz – nos círculos de influência cristã – tem a ver com as questões da realidade na sua dimensão não humana, habitualmente designada por natureza. Isto, contrariamente, ao que acontece nos círculos laicos ecológicos ou nos círculos de influência da espiritualidade oriental, onde a natureza contínua a ser pretexto para se pensar o tempo, o espaço, os mecanismos de «iluminação».
Já foi dito – acentuado sobretudo por Lubac – que o pensar que se quer sob influência cristã, andou um pouco a reboque do pensamento que se instaura na modernidade – pensamento não sem revolta, diga-se de passagem, visível, por exemplo, em certo romantismo – e que por isso o seguiu no modelo que separa natureza e sobrenatureza, pensando então também a natureza como algo subsistente e dotado de autonomia.
Perante esta natureza sem Deus, o pensar cristão viveu uma dupla dificuldade. Por um lado, pensou a natureza sem os seus melhores «instrumentos»: Deus, a criação, a encarnação. Por outro, viu-se envolvido num jogo cujas regras eram ditadas pelos seus adversários. Por aqui, talvez se justifique não só o desconforto do pensar cristão sobre a natureza, como o desconforto perante a ciência, enquanto modo de acesso ao real, culturalmente privilegiado.
Se estas pistas estiverem correctas, por aqui pode entender-se também que o pensar cristão poucas vezes retire lições daquilo que a arte recente vai produzindo. Nas discussões inauguradas pelo impressionismo, pelo cubismo, expressionismo, nas questões que são suscitadas mais perto de nós, não temos grandes ecos da reflexão cristã.
Não que o pensar cristão não reflicta sobre a arte. Longe disso. Não também que não possa manter um discurso consistente sobre muito do que melhor hoje se vai produzindo em termos artísticos. Não tem por certo grande dificuldade em montar um discurso consistente sobre Bresson e o seu Journal d'un curé de campagne, nem sobre o Sacrifício de Tarkovski, ou sobre as diversas Paixões que têm assolado as nossas consciências. Tudo o que implique relações humanas ou a representação da divindade cai com facilidade sob sua alçada. Mas o que acontecerá se tiver que pensar objectos como eXistenZ de Cronenberg onde é posto claramente em jogo o modo como concebemos a realidade não humana que nos circunda?