27 de fevereiro de 2004

«Uma experiência quase quotidiana mostra que certo número das críticas que nos fazem provêm, ao mesmo tempo, dos nossos piores adversários e dos homens de boa vontade. O tom, a inspiração profunda são diferentes, mas, no fim de tudo, os juízos são os mesmos. Espantosa mas significativa convergência! Alguns dos mais clarividentes e espirituais, de entre aqueles que iludimos, encontram-se presos entre dois sentimentos contrários. Vemo-los seduzidos pelo Evangelho, cujos ensinamentos lhes surgem plenos de força e de novidade, atraídos pela Igreja, na qual pressentem uma realidade mais que humana e a única instituição capaz de arranjar (…) a solução para o problema do nosso destino. E eis que param no limiar. O espectáculo que nós, os cristãos de hoje, “a Igreja que nós somos”, lhes oferecemos, afasta-os para longe. (…) Não é que forçosamente nos condenem; é, antes, porque nos não tomam a sério. (…)
Há cristãos que se recusam a protegerem a sua fé com uma barreira de ilusões. “Sim – afirmam –; tudo isso é muito verdadeiro. Considerado no seu conjunto, o nosso cristianismo é insípido. Apesar de tantos e tão belos esforços para lhe inocularem vida e frescor, encontra-se paralisado, apático, paralisado. Vai tombando no formalismo e na rotina. Tal como nós o praticamos, tal como o imaginamos, desde o princípio, é uma religião fraca e ineficaz: religião de cerimónias e devoções, de beleza e de consolações vulgares, sem seriedade profunda, sem influência real na vida humana, por vezes, mesmo, sem sinceridade. Religião divorciada da vida. Eis no que se transformou o Evangelho nas nossas mãos (…) Pois não serão sinais evidentes deste estado de coisas a impaciência perante qualquer crítica, a impotência para se realizar qualquer reforma e o próprio medo da inteligência? Cristianismo clerical, cristianismo formalista, cristianismo extinto e endurecido (…)” É nesta altura das suas reflexões, em que a lucidez corajosa começa a transformar-se em deformação satírica, que a tentação se insinua. (…) Em nome da saúde moral, do heroísmo ou da virilidade, é a própria Cruz a que se dirigem, é “a figura do Crucificado” que afastam para longe. (…)» - Henri de Lubac, O drama do humanismo ateu: 124-127.