2 de fevereiro de 2004

«Porque deverá a poesia lírica ser considerada como um veículo particularmente adequado do discurso espiritual? (…) De diversos modos, a lírica é intrinsecamente bem adaptada para este propósito, principalmente por causa da sua história erótica. Embora a lírica sirva diversos propósitos, um dos seus propósitos mais antigos e duradouros é a celebração do amor» Esta celebração do amor, tal como a espiritualidade, dá conta da interioridade. O amor: «como a espiritualidade é inacessível à observação directa. Pode ser observado somente através dos traços que deixa no mundo exterior e comunicado somente pela construção de analogias que convidam o leitor ou o ouvinte a comparar as suas experiências com aquelas que estão envolvidas no poema». Entretanto, esta celebração mostra uma interioridade em mudança: «a poesia preocupada com o amor sempre teve necessidade de expressar movimento, mudança, vida. Não pode permanecer estática e dar conta do seu alvo.» A celebração do amor, dando conta de uma interioridade em mudança, dá conta, tal como a espiritualidade, de uma interioridade que sempre remete para o outro: «o amor não é somente, como a espiritualidade, uma experiência interior (...) mas é também relacional.» Por isso: «o problema delicado de falar acerca da relação interior com a Última Realidade/Verdade Absoluta/Deus pode ser resolvido (tão longe quanto possa sê-lo) quando se toma um conjunto de instrumentos usados para expressar o amor humano que é não somente análogo ao amor divino, mas que em algum sentido lhe é contínuo.» (L. W. Countryman, The poetic imagination, Orbis Books, 2000, 23-25.)