8 de janeiro de 2004

Dos inimigos. Pouco se ouve falar de semelhante fenómeno. No entanto, uma das coisas que caracteriza a vivência social quotidiana é a invenção de inimigos. Alguém que se enfia no espaço entre o nosso carro e o carro da frente, passa a inimigo... A invenção de inimigos não diz necessariamente insanidade mental. Nós precisamos de permanentemente efabular. Precisamos também de imaginar inimigos como modo de nos prepararmos para o seu encontro. Por isso, quando o carro da frente ou a piada maledicente nos perturba e quando nós vemos o condutor ou o cómico como inimigo, isso pode não trazer consigo nada de mal. Quem momentaneamente se interpõe no nosso caminho, fá-lo assim: momentaneamente. Depois, vai à sua vida. Não quer saber de nós para nada. Contudo, se paramos o tempo, esse tempo em que demoramos a imaginar que quem fica parado no carro da frente, rompendo as luvas de competição, esse tempo gasto a imaginar o sorriso sardónico suspenso à Matrix, diz o tempo que nos resta até que comecemos a imaginar que o cão da vizinha é um alien.