25 de janeiro de 2004

“O misticismo redescobriu sempre o caminho que vai das alturas vertiginosas da sublime contemplação até os prados em flor do simbolismo. O doce lirismo dos velhos místicos franceses, S. Bernardo e os Vitorinos, virá sempre em auxílio dos visionários quando o recurso de expressão se tiver esgotado. (...) A Igreja receou sempre os excessos de misticismo, e com razão, pois o fogo do êxtase contemplativo, para consumir formas e imagens, necessita de queimar todas as fórmulas, conceitos, dogmas e mesmo os sacramentos. A verdadeira natureza do transporte místico, todavia, implicava uma salvaguarda para a Igreja. Elevar-se à claridade do êxtase, errar nas alturas solitárias da contemplação esvaziadas de formas e imagens, saborear a união com o princípio único e absoluto era para o místico a graça singular de um momento.
Ele tinha de descer das alturas. Para mais, os extremistas, com o seu séquito de enfants perdus transviavam-se no panteísmo e em excentricidades. Os outros, porém – e é entre eles que se encontram os grandes místicos –, nunca se perderam no caminho do regresso à Igreja, que os esperava com o seu sensato e económico sistema de mistérios fixados na liturgia. Oferecia a todos os meios de alcançar em dado momento o divino princípio em toda a segurança e sem o perigo de extravagâncias individuais. Economizava a energia mística e foi isso o que sempre a fez triunfar dos perigos com que o misticismo a ameaçava. (…)
Se, no entanto, o misticismo deu, em todos os tempos, abundantes frutos à civilização, é porque se eleva sempre gradualmente e porque nos seus estágios iniciais é um poderoso elemento de desenvolvimento espiritual. A contemplação exige uma severa cultura de perfeição moral como no estado preparatório. A cordura, a repressão dos desejos, a simplicidade, a temperança, o trabalho praticados pelos místicos criam neles uma atmosfera de paz e fervor religioso.
Todos os grandes místicos louvam o trabalho humilde e a caridade. Nos Países Baixos estes caracteres concomitantes do misticismo – moralismo, pietismo – tornam-se a essência de um movimento espiritual muito importante. Das fases preparatórias do misticismo intensivo de uns poucos saiu o extensivo misticismo da devotio moderna de muitos. Em vez do êxtase solitário dos bem-aventurados surgiu um hábito constante e colectivo de sinceridade e fervor, cultivado pelos simples habitantes das cidades na convivência fraterna das irmandades e dos conventos. Eles só possuíam um misticismo de retalho. Tinham sido tocados apenas por “uma pequena centelha”. Mas entre eles nasceu o espírito que deu ao mundo a obra em que a alma da Idade Média encontra a sua mais frutuosa expressão durante muito tempo: A Imitação de Cristo. Tomás Kempis não era teólogo, nem humanista, nem filósofo, nem poeta, e pode mesmo dizer-se que não era verdadeiramente místico. Todavia escreveu o livro que iria consolar as almas durante séculos. Foi talvez aqui que a transbordante imaginação do espírito medieval pode ser captada no seu mais elevado sentido. Tomás Kempis faz-nos regressar à vida quotidiana.” - enviado por Marcus Moreira Lassance Pimenta, excerto de Jan Huizinga, O Declínio [ou, Outono] Da Idade Média, Ed. Ulisseia, Portugal, 1996.