1 de outubro de 2003

O Inferno pode estar no Além. Nesse Além, há falta de amor. Um dos piores modos dessa falta é a indiferença. Indiferença que passa pelo não reconhecimento. Lembremos a história do Samaritano.
Quem não nos reconhece faz-nos viver no Inferno. Quando não reconhecemos alguém, fazemo-lo viver no Inferno.
Se for falta de reconhecimento permanente, então é Inferno permanente. Inferno permanente é então morte total.
Porque, viver é ser reconhecido. Ou pelo menos, é esse um dos modos contemporâneos de pensar e sentir a existência.
Não ser reconhecido eternamente, é, então, estar morto para sempre.
Assim, se, hoje, algum Dante surgisse para imaginar um Inferno teria de concebê-lo como lugar onde a marca distintiva seria não a dor mas a indiferença. Um lugar onde ninguém nos ouvisse, ninguém cuidasse de nós. Um lugar de desamparo e de silêncio atroz.
Aí, não seriam precisos algozes, fogo e azeite a ferver. Após quinze dias, nós, pura e simplesmente bum.