30 de setembro de 2003

- «Olá!» - «Olá!» Está bem. Um olá respondido com outro olá. Mas não: - «Olá!» - «- -». A razão é simples. Quem não é reconhecido não existe. É um dito simples, poderoso, nuclear. E nele se encerra muita verdade. Deixemos isso. Passemos directamente para uma das hipóteses de além. Passemos ao Inferno. Por exemplo, Dante e Marlowe dizem no Inferno um lugar de dor. A dor é a marca distintiva desse Inferno. E esta dor marca toda uma tradição.
Tanto quanto a dor, nesses autores, é pensada a fonte da dor: Marlowe: «não estar perto de Deus, perto do amor de Deus». Aqui, duas ressalvas. E ambas para tornar actual a linguagem. A primeira. Se não se quiser meter Deus nisto, meta-se o seguinte. É falsa a expressão: o Inferno é marcado pela ausência de amor? Se ninguém nos amar, se não houver ninguém que nos ouça, que trate de nós, vivemos o Inferno? - De seguida, o seguinte. A topologia teológica pode causar confusão. Substitua-se então Inferno por depressão, fobia. Feita a substituição, inquira-se: é falso afirmar que viver sem amor é a mesma coisa que viver num registo permanente de fobia, depressão e exclusão?
Há que dizê-lo: a mudança conceptual não dá no mesmo. O Inferno não é a mesma coisa que fobia, depressão. Inferno é um conceito melhor. Melhor porque cumpre melhor a função dos conceitos. O conceito de Inferno é mais inteligente e mais explicativo.