23 de setembro de 2003

Christopher Marlowe. Fausto.
Assentemos. Hoje é só terça e já anda muita poeira no ar. Confessamos: a tripulação não anda inspirada para dar conta da problemática do orgulho. Precisa de outros ventos, outros marinheiros, novas fragrâncias. Por isso: orgulho, hasta luego.
A constante insatisfação de ontem levanta uma primeira nortada: será que toda a constante insatisfação é problemática? Será que devemos não desejar nada para além do que somos? - A hipótese não parece aceitável. Mas a discussão fica adiada.
E vamos adiar outra vez. Pois, se falar de constante insatisfação é falar do futuro, para o futuro sopra uma segunda nortada: parecia que bastaria a Fausto desejar menos: menos poder, dinheiro e fama. Estaria bem. Com menos, Fausto andaria satisfeito. A questão seria de contas, quantidade, controle. Será assim? Será desejando menos que o problema do passageiro se resolve?

Temos estes dois problemas que apontam para o futuro. Mas, marcha à ré, regressamos ao passado: haverá um ponto onde se pode ver o nascimento da insatisfação e da desmedida? Haverá uma efeméride que celebra o nosso nascimento para Satã?

Em Fausto, há - parece!: é o dia da leitura do livro; Fausto lendo traça o caminho:

«Linhas, círculos, sinais, letras e caracteres,
Ah! Isto é o que o Fausto mesmo deseja.
Que o mundo de lucro e de prazer,
Quanto poder, omnipotência e honra
Estão prometidos ao artífice aplicado!
Tudo o que se move entre os dois pólos quedos
Terei à minhas ordens: Imperadores e Reis.»( Christopher Marlowe, História trágica da vida e morte do Doutor Fausto, 33.)

Bem mais difusa é a história de André:

É assim, a bordo. Vou puxar pela memória. A primeira vez que não quis ser quem era foi a seguinte. Estávamos em Chaves, era pequeno, no átrio da Igreja. A minha mãe, depois da missa, jovem, fresca e bela, trinta anos, trazia-me pela mão. Não sei quem, um homem, uma figura seca e difusa, deu os parabéns a minha mãe por qualquer atributo físico que eu possuiria, e perguntou-me cortesmente: - como está teu pai? – Não sei se já tinha escutado a pergunta. Talvez sim, talvez não. Mas ali abalou-me como nunca... Recordando melhor a pergunta não foi essa. Foi qualquer coisa do género: - então, queres ser como o teu pai? – Corei. Fiquei envergonhado. Uma corda profunda mexera. Não, não queria ser como o meu pai. Queria ser tudo menos como o meu pai. E o que é tanto mais triste, nem sequer ser filho dele...