25 de setembro de 2003

Christopher Marlowe. Fausto.
Depois do pecado original não se pode regredir. Também André.

É assim a bordo. Não deixa de ser verdade que nunca o tentei a sério. Segui para Coimbra, estudei. Fiz a faculdade e amigos. E tudo parecia normal. Não fosse o facto de estudar comunicação social e desejar secretamente estudar português. Não fosse o facto de ter dificuldade em ter prazer com as namoradas. Não fosse o facto de ter medo dos amigos... Tudo isto era leve. E leve a indignação. Não tinha decidido ser realmente outra coisa... Era apenas um vulcão pronto para a primeira oportunidade.

Fausto, quando a oportunidade surge, quanto tem o livro negro nas mãos, hesita num primeiro momento. Depois, leva um empurrão do Anjo Mau.

«Anjo Mau – Prossegue, Fausto, na famosa arte
Que contém os tesouros da natureza.
Sê na terra o que Júpiter é no céu,
Deus e senhor dos elementos todos.» (Christopher Marlowe, História trágica da vida e morte do Doutor Fausto, 37)

O modo como pensa o Anjo Mau é subtil. Essa subtileza não é apanhada por Fausto. Diz o Anjo: sê o maior, o mais poderoso... (Em voz alta, ligeiramente alterada) Segue o meu conselho!.. (Em voz baixa e em posição de caça) Obedece-me!... Maior!? The King!? E obedece-me!!!???

Fausto não dá conta desta subtileza porque está embrenhado no modo de pensar canino.

No pensamento obsessivo, por exemplo, por relógios, acontece isto. O pensador obsessivo tem um amigo. O amigo do pensador obsessivo diz: então, ia a lebre; interrompe o pensador: claro, anda rápido, mas com o relógio; o amigo muda de conversa, fala de mulheres; diz o obsessivo: sim, boas, mas bom é o...; o amigo respira, o pensador prossegue: pois, porque é simplesmente uma grande peça; o amigo interrompe: mas será que não posso dizer nada?; o obsessivo: nada! Bom tema! Por falares em tema, temo que o tempo... Para o pensador obsessivo tudo desemboca e encaixa nos relógios.
Com o pensador canino, acontece um fenómeno semelhante. Repete: filho de um porco! É mesmo filho de um porco! Um porco!... e se alguém tenta variar de assunto, o mercado mundial, por exemplo, o pensador canino retorque: que interessa! O filho de um porco!...
Assim, enquanto o obsessivo tenta encaixar tudo numa ideia fixa e tudo faz para reconduzir qualquer pensamento a tal ideia, produzindo, entretanto, as mais mirabolantes cadeias de pensamentos, o pensador e o pensamento canino pura e simplesmente não pensam: abanam ferozmente a mesma ideia, prontos a morder qualquer pensamento que se interponha. Excita-se e excita.

Vejamos Fausto excitado:

«Fausto – Como este pensamento me assoberba!
Farei que os espíritos me tragam quanto eu quero?
Darão eles resposta às minhas dúvidas?
Mandá-los-ei voar à Índia pelo ouro,
Revolver por pérolas o oceano
E rebuscar os cantos do Novo Mundo
Por frutos doces e rara especiaria.» (Christopher Marlowe, História trágica da vida e morte do Doutor Fausto, 37)