24 de setembro de 2003

Christopher Marlowe. Fausto.
Conhecem a expressão: filho de peixe sabe nadar? - Em linguagem popular quer dizer... o que vocês sabem.
Sócrates não concordava. A ser assim – advogava – um filho de um governante daria um óptimo governador. Coisa que então - e agora? - não se verificava. Para Sócrates, o Sócrates antipático, as virtudes dos pais não passam para os filhos. O Sócrates simpático, inferimos, deve afirmar que acontece o mesmo com a passagem dos vícios. Os vícios dos pais não passam para filhos.

A tradição Judaica e o Velho Testamento dizem que o mal feito no presente recai sobre as gerações seguintes. Vários foram os reis a sofrer deste modo a indignação divina. Mas hoje não é dia de realeza... Naaman general do exército sírio sofria de lepra. Ninguém lha curava. Tendo ouvido falar de Eliseu vai ter com ele. Eliseu cura-o e fá-lo gratuitamente. Giezi, servo de Eliseu, discorda do negócio. Intercepta Naaman a caminho de casa e aldraba-o. Tenta com a aldrabice repôr a sua verdade do negócio. Regressa a Eliseu. Aldraba novamente: «quem eu? Eu não fui a lado nenhum!». O profeta Eliseu amaldiçoa-o: «A lepra de Naaman pegar-se-á a ti e a toda a tua descendência para sempre».(II Reis, 5:27)

Parece que isto é injusto. Pode ser. Não vamos discutir. Mas não terá qualquer sentido? - Pode não ter. Mas deixemos o seguinte à vossa consideração: quando um pai e uma mãe entram num conflito destrutivo não passarão essa destruição para os filhos? O filho habituado à ausência de amor, não a transportará para a amada? Não afiarão de novo a navalha? E, novamente, novamente?

O que é que isto tem a ver com Fausto? - Pode nada ter a ver. Mas tem com André... O raciocínio aponta como fonte dos nossos males presentes os nossos males passados. Estes por sua vez apontam para males anteriores – um pouco à velho Freud. Só que Freud para na infância. O raciocínio vai bem atrás. Até aos pais. Avós. Bisavós. Tetravós. Até ao pecado original.

André não chega a tanto. Mas vacilando vê-se obrigado a regredir. Vejamos:

É assim a bordo. Tinha desejado não ser filho do meu pai. Mas isso entroncava em.. Não sei. Vinha de trás. Talvez no desejo de ser filho de outro homem. Talvez na fantasia de ser adoptado. Talvez na fantasia de ser rapariga. Sei lá. Não! Defintivamente, não! Não era um desejo de dez anos... Só pode ser: aos dez anos estava demasiado habituado a querer ser outra coisa. Sim. É isso: a questão do meu pai era apenas uma questão entre muitas.... Já foi a Chaves? Ao sol quente e seco? Ao zumbido e silêncio? Ao granito pardo e vivo?.. Eu sonhava o Verão inteiro ir-me embora. Sonhava com outra escola e com outra cidade. Atrasava o sono, tentando surpreender alguma conversa entre os meus pais. Ouvia atentamente os planos dos colegas de turma: Porto, Lisboa, Coimbra. Reconhecia em mim uma secreta vergonha de estar ali. Não devia estar longe? Fugir de casa? – Devaneios.