2 de setembro de 2003

Doutor Fausto de Thomas Mann, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1984. Não será muito vulgar dar conta de discussões teológicas a partir de uma obra de literatura. Entretanto, isto pode ser feito, já que as páginas que vão da página 153 até à página 169, no Doutor Fausto, dão muito do ambiente fim – início do século vinte que rodeava as discussões teológicas alemãs. Num dos passeios dados pelos jovens cristãos da Associação Winfried aos campos da Turíngia, numa das paragens num dos passeios pelos bosques e antes de uma noite dormida em cima do feno no galpão de uma granja, Thomas Mann põe-nos em contacto com o ambiente e as coordenadas dessas discussões teológicas. Aí, após discussão do estatuto da juventude que emergia na sociedade ocidental aparece o dito que despoleta a discussão: «os grandes feitos dos alemães sempre foram realizados sob a inspiração de certa imaturidade poderosa, e não é por acaso que sejamos o povo da Reforma. Ela também tem sido obra de imaturidade. Maduro, sim, era o cidadão florentino do Renascimento, que antes de ir à igreja, dizia à sua esposa: “pois então, vamos prestar homenagem ao erro popular!" Lutero, porém, era bastante imaturo, bastante povo, bastante povo alemão, para transmitir a fé nova, purificada. Que seria do mundo, se a madureza fosse a última meta!? Nós, na nossa imaturidade, ainda lhe proporcionaremos muita renovação e muitas revoluções. Após estas palavras de Deutschlin, seguiu-se um breve silêncio.» (157-158) Adrian Leverkühn, o herói do livro, propõe de modo difuso que a experiência religiosa caia debaixo de um registo colectivo. A opinião que expõe tem um carácter fundamentalmente negativo. Insurge-se contra uma concepção subjectivista da religião, em que seja separada a Igreja do Cristianismo: «Vejo na Igreja, até mesmo na actual, por mais secularizada e aburguesada que seja, ainda assim uma fortaleza da ordem, um instituto dedicado à promoção da disciplina objectiva, à canalização e ao represamento da vida religiosa, que sem isso descambaria na desmoralização subjectivista, no caos numinoso, convertendo-se num mundo fantasioso, sinistro, num mar de demonismo. Separar a Igreja da Religião significaria renunciar a separar a religiosidade da demência…» (160) A proposta de uma vivência colectiva da religião tem um outro adepto no jovem Artz. Artz era um jovem que «os outros alcunhavam de socialista, por causa da sua paixão pela questão social, que ele encarava do ponto de vista cristão. Artz gostava de citar o aforismo de Goethe, segundo o qual o Cristianismo tinha sido uma revolução política, que, depois de fracassar, tornou-se moralista.» (160) Para Artz, seria necessário encontrar o modo de organização social que melhor se adaptasse ao Cristianismo. Esta proposta parece agradar a von Teutleben. Com uma diferença: afirma definitivamente a comunidade nacional, a Nação, como aquela que seria capaz de encarnar o Cristianismo. Para este, a Nação seria o meio social onde o Cristianismo poderia encarnar. O último discurso de que daremos conta, curiosamente sem autoria firmada, merece ser citado quase na íntegra: «Mas o espírito nacional também é transitório (…) sendo teólogos, não devemos admitir que o povo seja algo eterno. A predisposição ao entusiasmo é uma coisa muito boa, da mesma forma como a necessidade da fé é natural na juventude, mas também representa uma tentação» «e precisamos analisar cuidadosamente a substância dos novos laços, que hoje em dia, em face da agonia do Liberalismo, oferecem-se em toda a parte, para vermos se são ou não são autênticos, se o objecto que os cria é algo real ou talvez seja apenas produto de… digamos, algum romantismo estrutural, que proporcione objectos ideológicos com recursos nominalistas, para não dizer ficcionais.» «Pelo que penso, ou pelo que receio, o idolatrado espírito nacional e o Estado visto como utopia são laços nominalistas deste género, e crer neles, como, por exemplo, crer na Alemanha, não estabelece nenhuma obrigação, porque nada tem a ver com a substância da pessoa e as qualidades nela contidas.» «Eis o que chamo nominalismo ou melhor: fetichismo de nomes, e o que, a meu ver, é idolatria ideológica.» (163)