19 de julho de 2003

Rowan Williams, The wound of knowledge, Darton, Longman and Todd, London, 2002. O livro começa com um «credo». São catorze páginas. Cheias como um ovo. Vejamos. Do início da experiência cristã à sua reactualização; porque é que se deve ver o cristianismo na história e porque é que se deve vê-lo plural e diversificado; porque é que por aqui não se abre a porta a qualquer relativismo; porque é que reactualizado o cristianismo propõe a integração de esferas, familiar, social, cultural, económica; porque é que a integração nunca é posse ou acabamento. Depois, a partir da diferença inicial entre judeus e cristãos, enuncia a diferença entre a «Lei» como vontade de sujeição à vontade do outro e Lei como disponibilidade para o outro; faz da ressurreição o primeiro fundamento do Novo Testamento; dá conta da divisão e da crise que o Testamento trouxe consigo e da visão de Deus no fracasso e no desamparo; retoma o dia a dia, as crises e experiências de fracasso, advoga que o avanço na espiritualidade passa pela aceitação da dor e da dúvida; depois, pensa a relação ente esta aceitação, a passividade e a esperança... Há mais. Mas, chega. É tempo de vermos alguns dos passos históricos que o livro percorre.
Primeiro, o livro dá conta das respostas cristãs ao desafio gnóstico, à estratégia de divisão do natural e do sobrenatural, do Antigo e do Novo Testamento. O livro fornece as propostas de Ignatius, Ireneu, Clemente e Orígenes. O primeiro, aposta no sofrimento e martírio terreno; o segundo, na carnalidade e na história; os últimos, na tentativa difícil de conciliar ascensão cognitiva e historicidade de Cristo.
No século quarto, surge o desafio de Arius. A este opõe-se Athanasius. A partir dele é clarificada uma das teses do livro e da leitura histórica que nele se faz:
«O Deus de Athanasius transcende ‘a sua própria transcendência’ para ser encontrado na forma humana (...) Nós regressamos outra vez ao tema do carácter oblíquo do conhecimento cristão de Deus, discernindo o Deus escondido no que não é Deus, conhecendo-o como o Único que não se deixa conhecer, e por aí adiante. Nós não começamos com ideias inatas ou intuitivas do absoluto ou do transcendente; nós somos arrastados para uma vida transformada, fala e actividade na qual a inexaustiva fonte de Deus nos arrasta e é gradualmente descoberta. E o agente deste «arrastamento» é a figura histórica de Jesus (...)» (53)
Depois desta citação é altura de darmos um salto e pararmos em Agostinho. Primeiro, na sua posição quanto ao conhecimento:
«Pôr Agostinho ao lado dos maiores escritores Gregos Cristãos é um exercício curioso e instrutivo. Orígenes, Gregório e mais tarde, no século sétimo, Maximus, o Confessor, têm todos uma consciência viva da inadequação do intelecto, da primazia do amor, da intratável e misteriosa subjectividade humana; mas nenhum deles vê tudo isso à luz trágica de Agostinho.» (88)
Isto é entretanto o que justifica o modo de vida dos Padres do deserto e de algumas comunidades que desde cedo marcaram a história do cristianismo:
«O monaquismo primitivo é uma procura de um contexto no qual as ilusões e as distorções da realidade possam ser removidas – realidade individual, realidade das outras pessoas, realidade social.» (99)
Isto permite a Rowan reconstruir a seu modo a «visão negra» de Agostinho:
«As lutas dos homens e das mulheres para fazerem as suas próprias vidas e para construírem as suas próprias seguranças acabam em desespero; e isso é igualmente verdadeiro para o crente e para o não crente.» (76).
«De modo breve: os sofrimentos da vida terrena não são primeiramente designados para exercitar os nossos músculos morais, nem para nos ensinar resistência, mas são permitidos por Deus para nos arrastar até si; eles abrem os nossos olhos para a verdadeira condição da nossa existência finita, os nossos e os do mundo, para a esfera da pobreza, lágrimas, solidão, desilusão e para as cicatrizes de incontáveis e não inteligíveis feridas. Isto é dificilmente “moralismo” (...)» (82)
Depois, com matizes: «Entretanto, concentrar apenas no lado negro de Agostinho é enganador: existe um pouco de esperança no mundo, ainda apenas no mundo; apenas com os outros homens e mulheres nós aprendemos esperança, piedade, alegria, confiança e amor.» (88)