27 de julho de 2003

Rowan Williams, Arius, SCM Press, London, 2001. Arius é uma figura mais que controversa na história do Cristianismo. Neste livro, tenta-se dar conta da génese do seu pensamento e daquilo que o tornou susceptível de ser acusado de herético. Na descrição e explicação desse trajecto, Rowan Williams introduz alguma surpresa. Temos tendência a pensar que a heresia surge como uma tentativa de desvio. Contudo, aqui temos um Arius a funcionar de um modo algo diferente. Rowan Williams advoga a tese de que se Arius é um herético é porque Arius é um conservador que organiza de modo radical todo um conjunto de elementos dispersos na tradição. Simplificando: Arius é herético não por uma tentativa de desvio, mas pela tentativa de organizar e radicalizar o que os trajectos teológicos anteriores mantinham em tensão. Por exemplo, a afirmação da distância de Deus Pai ao mundo, é afirmada por Arius de modo tão radical que é colocada «fora» da equação da vida religiosa.É sabido, entretanto, que a questão ariana passa muito pela discussão da natureza de Cristo. Aqui, é bom lembrar de que ao contrário do que por vezes se pensa não é Arius que defende a estrita humanidade de Cristo. Arius não é um adopcionista. Não vê Cristo como um homem que foi adoptado por Deus. Assim, o que causa problema é mais uma vez a distância, o facto de que Cristo é pensado em função da distância ao Pai. Aqui, tanto quanto os argumentos, as consequências fazem de Arius um ponto de desvio na tradição: «(…) a teologia dos Capadócios – como a de Vitorino, Agostinho, Pseudo- Dionísio, Máximo, e a (…) de Aquino e João da Cruz. É não menos séria na sua negatividade que a de Arius ou a de Plotino. A diferença crucial, entretanto, é que esta energia de negação conceptual é ligada a um sentido de íntimo envolvimento na vida de Deus, mais do que a uma absoluta disjunção.»(242-243)