23 de julho de 2003

Peter Brown, The rise of western christendom, Triumph and diversity, A.D. 200-1000, Blackwell, 2003. A tarefa a que se meteu Peter Brown, neste longo livro, é árdua. Desmontar as habituais narrativas acerca do Império Romano, sobretudo no que concerne à sua «queda». Fazer o mesmo, no que é relativo à centralidade de Roma. E no tempo que vai de 200 a 1000, dar conta do trajecto da cristandade do ocidente, contrabalançando, entretanto, tal trajecto com o que vai acontecendo no cristianismo de oriente. Para mim que tinha e tenho em apreço o livro de Henri Pirenne, Maomé e Carlos Magno, (ASA), não pude deixar de ficar surpreendido.
À centralidade do comércio e do Mediterrâneo é contraposta uma teia flutuante de relações que vão da Ásia à África, de África à Europa do Norte. Quando passa perto de nós, pára em Chaves: «Hydatius (...) com dez anos visitou Jerusalém com a sua mãe. O pequeno rapaz foi apresentado a Santo Jerónimo (...) Quando ele começou a escrever a sua Crónica, em 455, Hydatius tinha sido Bispo Católico de Chaves (...) durante quase 20 anos. Ele tinha visto o fim de uma idade.»(99) Eu desconhecia a sua existência.
O capítulo 4 dá conta da cristandade de leste e da estabilidade política que por aí permanece alterada apenas pelas controvérsias entre Nestorius e a sua visão de Cristo como homem ligado de modo especialíssimo a Deus e o monofisismo de Cyril que concebe Cristo como Emmanuel, Deus connosco, e por isso, um ser onde é conjugada na mesma natureza a divindade e a humanidade.
No capítulo 5, Brown avança para as fronteiras do Império de Oeste em dissolução e dá conta dos diversos modos como as igrejas se organizam face às sociedades onde vão emergindo. Assim, se na Gália, por exemplo, a igreja assume um papel de liderança social e se na Roma britânica, a sua função parece ser fundamentalmente crítica, na Irlanda, surge um modo diferente de conviver com o tecido social que a envolve:
«As igrejas irlandesas têm pouco das grandiosas ambições e da intolerância colectiva que caracterizou o império cristão pós Constantino e dos confiantes centros urbanos da Gália e Itália. (...) Os cristãos estavam consideravelmente menos preocupados em como deveriam cristianizar os seus vizinhos do que em preservar a sua própria identidade.» (132)
Depois dá não só conta das condições do aparecimento do Islão, como da cristianização levada a cabo entre povos pagãos.
Começa por nos alerta para o facto dele não ter surgido do nada. Diz-nos que os debates entre Cristãos e Judeus eram frequentes:
«(...) eles eram perfeitamente normais na Arábia. Para o historiador, não há nada de admirável neste facto, por volta do ano 600, o Cristianismo e o Judaísmo eram bem conhecidos na Península Arábica. O que é mais admirável é que na pessoa de Muhammad de Meca (570-632), a Península Arábica produziu um profeta que, na opinião dos seus posteriores seguidores conhecidos como Muçulmanos, recebeu de Deus a autoridade para transmitir aos seus companheiros Árabes, o próprio e definitivo julgamento de Deus acerta da Cristandade e do Judaísmo.» (289)
Depois, dá conta das dificuldades da cristianização. Verificada por exemplo em Inglaterra mostra como a cristianização foi um processo complexo. Quando o rei pagão saxão Ethelbert de Kent (560-616) se tornou cristão, surgiu em Inglaterra um problema que tinha surgido em outros tempos e lugares: o que fazer, por exemplo, com os lugares sagrados do paganismo? – Aqui, seguiu-se a solução de Gregório: haveria que transformá-los e reutilizá-los. O paganismo deveria ser vencido progressivamente. Brown cita Gregório a propósito do processo de conversão dos pagãos: «é sem dúvida impossível cortar tudo de uma só vez das suas mentes teimosas: tal como um homem que tenta subir a mais alta montanha vai passo a passo e com lentas ascensões, não através de saltos.» (346)