21 de julho de 2003

Peter Brown, The body and society, Columbia University Press, Nova Iorque, 1998. O corpo e as relações que estabelecemos com o corpo. Se atribuímos importância a Foucault sobretudo pelos seus últimos trabalhos na história da sexualidade, e particularmente, ao livro O Cuidado de Si, a leitura desta obra de Peter Brown não pode ser feita sem curiosidade, já que o que aqui se propõe é em grande medida dar conta do fenómeno inverso da abstinência. O subtítulo é indicativo: men, women, and sexual renunciation in early christianity.
Curioso é também o modo como Brown lida com a temática clássica do desvario sexual dos Romanos. O desvario sexual é uma das razões indicadas para justificar a decadência da sociedade romana. Para Brown, isto é um mito. A sexualidade, no século segundo, era controlada. Utilizando o dueto de conceitos alma/corpo, a alma tinha por função controlar o corpo, evitar que o desejo do corpo se tornasse ingovernável.
Assim, parece não existir diferença em relação à atitude cristã. Esta propunha, também, precaução. Para Brown, muito desta atitude preventiva provém de São Paulo. Em São Paulo, o sexo, parece, por vezes, concebido como mal menor. Há que "despachá-lo" antes que perturbe.
Entretanto, no cristianismo, outra via é aberta e sublinhada, nomeadamente, por Clemente de Alexandria: não governar o desejo, nem despachá-lo, mas suprimi-lo (ver 31).
Porém como foi dito, o tema maior do livro é a abstinência. O tema da abstinência sexual é hoje estranho. Fora de algumas comunidades religiosas, pouco apreciado. Vivemos preocupados com a norma sexual e seus desvios. Por isso, parece difícil advogar que valha a pena discutir a abstinência sexual.
A pertinência de um tema depende da justificação que lhe é conferida. Neste livro, a história da abstinência e da sua justificação percorre longos caminhos. Desde a argumentação do herege Marcion - que defende como únicas comunidades religiosas aquelas onde todos os membros renunciam ao sexo -, até às vias mais ortodoxas sedimentadas por Clemente de Alexandria e António. Em António e nos seus Padres do Deserto, o sexo é entendido um dos campo onde há que treinar a vontade para que esta se torne dócil à vontade de Deus.
Este tipo de teorização é hoje difícil de entender. E parece nada trazer ao modo como hoje pensamos a sexualidade. No entanto, podemos encontrar por aqui indicações que estão longe de poderem ser afastadas… Um exemplo? – É frequente na relação sexual a vontade de domínio do outro. A vontade de domínio do outro era o que os Padres do Deserto queriam anular dentro de si. Percebendo como o exercício é feito, poderemos talvez compreender porque não conseguimos fazê-lo.