3 de julho de 2003

Peter Brown, Agostinho. Uma das virtudes da biografia de Agostinho de Peter Brown é a de dar conta dos movimentos de continuidade e ruptura na vida de um homem (a história da conversão descrita nas Confissões). Nesta história, Brown assinala com particular ênfase o seguinte. Convertido, Agostinho espera a felicidade. No entanto, pouco depois, tal expectativa é gorada. Não é possível ser feliz neste mundo. Contudo, a desilusão não é suficiente para Agostinho parar o seu caminho. A partir daqui, percebe-se porque Agostinho valoriza a perseverança como virtude fundamental. E o livro faz-nos perceber, o desdobramento da perseverança na noção, para muitos, terrível, de predestinação... Entretanto, como é óbvio, o livro confronta-nos com o pensamento controverso do Santo. A primeira grande controvérsia de Agostinho foi com os donatistas. Agostinho rejeita a ideia de uma Igreja separada do corpo social e o que lhe é implícito: só separada a Igreja pode ser perfeita. A segunda grande controvérsia é com Pelágio e seus seguidores. Agostinho rejeita o que parece implícito nas teses de Pelágio: que fosse possível dentro do corpo dos fiéis instituir um corpo de eleitos, eleitos que seriam aqueles que tivessem capacidade para levar a vontade ao limite. Rejeita assim a tarefa destinada a grande maioria dos fiéis que consistiria apenas em admirar o carisma e os feitos dos eleitos.