9 de julho de 2003

José Fernando Guimarães, O Caminho da definição, Edições Mortas, Porto, 2003. O livro começa com uma tentativa de delimitar os trilhos que permitem percorrer, pessoalmente, a clareira da floresta poética. No início, diz: «Desconheço se o anjo, // a musa ou lá o que é partiram, // quem sabe se para sempre, // quem sabe se de férias.» (Abertura).
Por aqui, somos confrontados com uma ressonância heideggeriana. Para Heidegger, na palavra anuncia-se outra palavra, e se esta outra palavra anda perto da palavra do poeta, para Heidegger, como para J. F. Guimarães, é, no mínimo, com extrema dificuldade que a escutamos. Por isso, não é estranho que o poeta acabe o poema, sublinhado tal dificuldade: «(...) Por isso, // pensando bem, // acho que anjo, // musa ou indizível // nunca partiram // - nós, por vezes, sim.» (Abertura).
Como é sabido, a questão da anunciação da palavra é antiga: é uma questão bíblica. Todavia, não iremos, aqui, tentar estabelecer uma distinção entre o modo como a tradição heideggeriana e a tradição bíblica pensam a anunciação e o anunciado. Também não debatermos as ramificações teóricas da temática da dádiva. «(...) Porque a palavra poética // - essa espessa neblina que tolda o olhar por dentro, // a ponto de ser desmedida surpresa - // é um dom. Também o sacrifício de Abraão o foi» (Abertura). Diremos apenas que a temática da dádiva tem no Caminho poucos ecos de M. Mauss (Ensaio sobre a dádiva, Edições 70, Lisboa, 2001), já que nele ecoa preferencialmente J. Derrida (Donner la mort, Éditions Galilée, Paris, 1999).
Aqui, não conseguimos resistir a colocar um pequeno contraponto. Para isso, chamamos à colação São Paulo. Na escrita do apóstolo, o dom aparece com uma dupla face: por um lado, é aquilo que Deus dá a todos os homens; por outro, é a dádiva específica, aquilo que Deus dá a cada um. Deus dá a todos, e receber a dádiva é tornarmo-nos capazes de a perpetuar; Deus dá a cada um, e receber é tornarmo-nos capazes de executar a tarefa que nos está destinada.
Assim, à complexa elaboração da problemática do dom por Mauss, onde toda uma antropologia e uma sociologia se jogam, e à talvez ainda mais complexa problematização efectuada por Derrida, contrapomos, após São Paulo, apenas a seguinte questão: admitindo que Deus confere o dom da poesia, em que consiste perpetuar pessoalmente tal dádiva?
Vejamos, então, o que o Caminho nos dá. No seio de muita poesia, marcada pelo fragmentário ou pelo exercício de mera descrição de paisagens ou sentimentos, o que temos, com o Caminho da definição, é uma poesia que pesquisa de modo coerente para nos transportar para a procura diligente da luz naquilo que vemos ou fazemos.
Não raro, depois de lermos o Caminho, voltamos ao espanto do verde numa folha de árvore ou ao espanto do ressurgimento de um pensamento que antes ficara na sombra.
Dito isto, aqui ficam alguns versos da nossa preferência: «fecha-se o silêncio // e o seu olhar // ao frio mais agreste // de Dezembro. // Assim, as mãos, // essas tardias pálpebras // dobradas pelo seu peso».