25 de julho de 2003

Henri de Lubac, Augustinianism and modern theology, Herder and Herder, New York, 2000. O Cardeal Lubac não é um homem fácil, nem escreve ao gosto do tempo. Por isso, também, talvez, a dificuldade que o próprio catolicismo teve em aceitar o seu pensamento. Faz sentir a sua “dureza” hoje e ontem, e ontem, por exemplo, entre outros, a Baius e a Jansenius. Por isso, não pode ser lido sem sentirmos um certo fascínio: fascínio por quem defende posições sem contemplações... Este livro não é mais do que um livro onde são aprofundadas e desenvolvidas todo um conjunto de posições defendidas em livros anteriores. Se por aí, não temos nada de novo, temos, entretanto, a confirmação de diversas matrizes que atravessam o seu pensamento. Um augustianismo onde a leitura espiritual se sobrepõe à leitura literal – não esquecer que Lubac tem uma obra importante sobre os quatro sentidos da interpretação medieval das Escrituras. Um repúdio claro das estratégias dos cenários – construção intelectual que serve como matriz para a leitura da realidade histórica que nos circunda e um apreço pela meditação de Agostinho que toma como matriz o que vai acontecendo no tempo. Por fim, uma constante preocupação com a temática da Graça... Esta é tratada neste livro em função da noção de natureza. Para Lubac, com o advento da modernidade, a noção de natureza foi ganhando dois rostos: a natureza natural e a natureza sobrenatural. Criou-se um espaço dual e esta dualidade justificou-se por exemplo a não interferência disciplinar, colocando de um lado filosofia e de outro a teologia. Como ramificação desta primeira divisão surge depois a cisão entre filosofia e ciência.A história da cisão entre naturezas é longa e o livro percorre-a com detalhe suficiente. Menos percorrida, mas também aludida é a cisão que se dá dentro do próprio espaço do pensar religioso. Por um lado, surge o pensar religioso que reclama o uso do instrumento filosófico e por outro o pensar religioso que passa a habitar no que por vezes se designa de espiritualidade. Não será por aqui que um e outro poderão perder a sua pertinência. Mas parece surgir em Lubac, pelo menos, implicitamente um apelo para a sua cooperação. Para percebê-lo, podemos dizer que em Lubac São Tomás de Aquino reemerge como pano de fundo e reemerge em Lubac também a intenção de São Tomás de colocar em cooperação místico e filosófico.Por fim, deixamos uma pequena nota sobre a oração. Tem-se por vezes tendência a pensar a oração como mera ladainha, um mero rito com carácter mágico. No entanto, a oração pode – deve – ser uma coisa bem diferente: um pedido. «Mas a nossa oração (ela mesma efeito de uma primeira graça) é principalmente uma oração de petição: “deixa-os rezar para que eles possam receber o que ainda não têm”. É a oração do homem doente implorando saúde (...) do homem condenado que reza por misericórdia.» (91)