17 de julho de 2003

Etienne Gilson, The arts of beautiful, Dalkey Archive, 2000. Quando queremos hoje pensar as artes, os nomes sucedem-se: Goodman, Deleuze, Foucault, Adorno, Benjamim, Heidegger. Outros. Sucedem-se os diversos modos como são pensadas: socialmente, politicamente, cognitivamente, ontologicamente. Historicamente, o século passado deixou inúmeras questões: o que são vanguardas, o que é o novo, a estrutura, a série, a variação, o simulacro, a revolta e por aí além. Mas será que nesta sucessão de nomes, de disciplinas e de temas, o nosso tempo tem dado o devido espaço à questão da beleza?
O livro de Gilson recoloca a questão da beleza em função da expressão «belas artes». A partir desta expressão pensa a arte em termos de produção e esta produção em termos da beleza:
«O que eu quero sublinhar, é que já que o seu fim é produzir o belo, as belas artes (...) sempre apelaram para inteligência e para o conhecimento, mas não em benefício de ambos, mas em benefício da beleza. Um quadro pode representar qualquer objecto, um poema pode ensinar filosofia como Sobre A Natureza das Coisa de Lucrécio, ou agricultura como o Geórgicas de Virgílio ou teologia como a Divina Comédia de Dante. Em Lucrécio como em Dante, a filosofia é a serva da beleza: philosophia ancilla artis.» (14-15)
Neste tratamento da questão da beleza, Gilson vive das lições do aristotelismo. Contudo, visa desafiá-las por dentro. Gilson diz-nos que no aristotelismo existe uma ligação excessiva entre arte e conhecimento que se justifica pelo facto de a arte ser pensada em função da imitação. Se a arte é imitação, é então conhecimento e assim é em função do conhecimento que deve ser discutida. Entretanto, para Gilson, dizer que a arte tem por finalidade a beleza, põe em causa a importância atribuída à cognição… Valham o que valerem as posições de Gilson, elas são pelo menos um pretexto para percebermos como as tradições não têm de ser necessariamente estanques.
Ficam por fim uma nota acerca da relação entre arte e religião: «tal como o Concílio de Constantinopla assimilou as imagens aos Evangelhos, o de Trento, na sua vigésima quinta sessão (1563) realçou a analogia entre a adoração de imagens e a de relíquias. O Concílio sublinhou uma verdade que esteve presente desde a origem da Tradição cristã, mas que alguns perderam de vista. O culto cristão de imagens difere da idolatria pagã, pois no caso dos pagãos, a sua adoração é dirigida para a imagem em si mesma, pensando que a pintura ou a estátua têm algo de divino, ou, pelo menos, de sobrenatural. Para o cristão, nada deve ser esperado da estátua, nenhuma fé é colocada no seu poder.» (164-165)