31 de julho de 2003

Alister E McGrath, A life of John Calvin, Blackwell Publishers, Oxford, 2000. O Calvinismo é um fenómeno – de resto como tudo o que se relaciona com a Reforma – mal conhecido entre nós. Este livro, histórico no tom, advoga que o Calvinismo – mais do que o Luteranismo – é algo que vive por um lado do tempo, das suas convulsões sociais e políticas, e por outro, um fenómeno que vive para o tempo. Calvino, ao contrário de Lutero, procura intencionalmente um modo de organização de Igreja susceptível de se disseminar e sobreviver às vicissitudes da história. Exemplo disto é a capacidade do Calvinismo, após difusão em França, ter sido capaz de enfrentar as hostilidades das autoridades francesas, sobrevivendo como autêntico movimento underground.Na história que aqui nos é contada, achamos interessante o modo como é explicada a interpenetração do trajecto pessoal de Calvino com o seu pensamento. Assim, o trajecto de Paris a Orléans, de Orléans a Genebra, de Genebra a Strasbourg e o regresso à cidade suíça, é pretexto para uma explicação do modo como o pensamento de Calvino vai sendo construído. Neste trajecto, Calvino vê os desígnios da Providência. Mas, não é esta a única manifestação divina que Calvino concede aos assuntos humanos. Se para Calvino, Deus se manifesta nos acontecimentos humanos, é também capaz de manifestação nas palavras dos homens, por muito fragmentário e pouco preciso que seja o modo como percebemos como tal acontece (129).Calvino elabora um corpo teológico que dá à encarnação um lugar central e que assim se revela como fundamentalmente cristológico. Calvino vê a humanidade presa nas consequências da queda de Adão e de tal modo que a razão e a vontade estão irremediavelmente presa nas teias do pecado. A libertação do pecado só é susceptível de se efectuar pela acção da Graça. Contudo, se esta em autores como Melanchthon parece extrínseca, na medida em que é concebida como acção exterior de Deus, em Calvino, a Graça surge como uma acção do Espírito Santo que produz no interior do homem a presença de Cristo vivo e que assim despoleta a fé…McGrath não defende a centralidade da ideia de justificação pela fé no pensamento de Calvino. Não defende também a centralidade de algo que foi considerado sua marca distintiva: a noção de predeterminação. Vê no pensamento de Calvino uma interrelação de noções em função de um fundo cristológico. Por aí, faz-nos compreender o modo como Calvino pensa os dois Sacramentos da Reforma, o Baptismo e a Eucaristia.Construído este corpo teológico, Calvino começou a construir a partir de Genebra o modo de o propagar. Aqui, McGrath aponta dois mecanismos preferenciais: a troca de correspondência com intelectuais de mais diversas proveniências, fazendo alargar a sua influência à Europa culta, e a construção de um corpo missionário que instruído na Academia de Genebra fosse capaz de difundir as suas ideias. Isto foi de tal modo conseguido que o Calvinismo pouco depois da morte de Calvino era já um poderoso movimento internacional. Aqui, o Calvinismo viu-se confrontado com o Luteranismo. Por isso, se antes – e ainda em vida de Calvino – a preocupação doutrinária tinha sido a diferenciação com o Catolicismo, agora, a preocupação era a diferenciação com o Luteranismo. Nesta estratégia, a noção de predestinação surgiu como a pedra de toque.Bezan é um dos maiores expoentes desta estratégia. Colocando, a noção de predestinação como noção primeira, desdobra-a logicamente e faz dela derivar uma série de afirmações – no mínimo – polémicas, como a que afirma que Cristo apenas morreu para os eleitos (215).Esta estratégia não decorreu sem conflito. E mesmo dentro do Calvinismo: «para Arminius, a abordagem teológica de Bezan via predestinação é o resultado de um método dedutivo e sintético – o método correcto é analítico e indutivo» (216), o que diz do seu desagrado quanto à metodologia utilizada e às conclusões a que chega Bezan.“O académico do século dezasseis, Ronald H. Bainton, lembra que quando o Cristianismo é tomado a sério, ele deve ou renunciar ou dominar o mundo” (219).Na Reforma foram muitos os que seguiram uma e outra via. Muitos recusaram-se a participar na vida social e tentaram construir sociedades alternativas. Outros, como os Calvinistas, procuraram afirmar-se no mundo (219). No Calvinismo, surge uma característica marcante. Para compreendê-la, pense-se por exemplo na ética de Barth em Church Dogmatics. Esta parece viver na generalização e na abstracção. O Calvinismo seguiu Calvino no pouco apreço por este registo. Assim, se o Calvinismo procurou dominar o mundo, não pensou o domínio abstractamente, mas antes concretamente, neste e naquele preciso local. Aqui, como não podia deixar de ser, o livro passa por Max Weber.Para McGrath, não é o Calvinismo que origina o Capitalismo. O Calvinismo colabora com o Capitalismo emergente de dezasseis e potencia-o. Por diversas razões; entre elas, porque, para Calvino, Cristo deve afirmar-se no mundo. Daqui, resulta a irónica atitude calvinista perante a contemplação e a sua recusa das atitudes monásticas.